Artigo publicado em revista internacional destaca impacto das ações afirmativas no ingresso de alunos no curso de medicina da Escs

A pesquisa analisou desempenho de estudantes de medicina formados entre 2023 e 2025

Sanmya Meneses, da Fepecs | Edição: Natalia Oliveira

Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Escola Superior de Ciências da Saúde (Escs) foi publicado na revista científica internacional Medical Teacher e compara o
desempenho acadêmico de estudantes de medicina, durante o internato, a partir da forma de ingresso ao curso. O foco da pesquisa foi compreender o impacto das ações afirmativas no percurso acadêmico dos discentes. O artigo é assinado pelos pesquisadores Claudia Zaramella e Fabio Amorim e analisou o desempenho de estudantes de medicina formados entre 2023 e 2025 e que ingressam de forma regular ou por meio de ações afirmativas.

Os dados mostram que, entre os 236 estudantes avaliados, 43,2% ingressaram no curso por meio de ações afirmativas, um percentual que evidencia o alcance social da política de inclusão da instituição. O levantamento também revelou diferenças importantes entre os estudantes cotistas e não cotistas no momento do ingresso, especialmente relacionadas à condição socioeconômica.

Entre os indicadores analisados estão fatores raciais, região de residência, renda per capita da localidade onde o estudante vivia ao entrar no curso e nível de escolaridade dos pais. Os discentes admitidos pelas ações afirmativas apresentavam, de forma significativa, menor renda per capita em suas regiões de residência, além de índices menores de desenvolvimento humano (IDH) quando comparados aos alunos do acesso regular.

O estudo também identificou que estudantes cotistas tinham menor probabilidade de ter pais com ensino superior completo. Enquanto 72,9% dos estudantes avaliados tinham ao menos um dos pais graduados, esse percentual foi, de forma significativa, menor entre os alunos admitidos pelas políticas afirmativas.

Outro dado relevante aponta para diferenças raciais dos grupos. Entre os estudantes ingressantes pelas ações afirmativas, a autodeclaração como pessoas brancas foi menos frequente, reforçando o papel das cotas na ampliação da diversidade dentro de um dos cursos mais concorridos do país.

Apesar das desigualdades observadas no ponto de partida, os resultados acadêmicos mostraram equilíbrio ao longo da formação médica. Segundo os autores, após o controle das diferenças educacionais e socioeconômicas, a forma de ingresso não apresentou impacto negativo independente sobre o desempenho dos estudantes.

A pesquisa destaca ainda um diferencial metodológico: a avaliação acadêmica foi feita de maneira multidimensional, considerando aspectos cognitivos, práticos e também competências relacionadas ao profissionalismo médico durante toda a graduação. Para os pesquisadores, essa abordagem permite uma análise mais ampla e fiel das trajetórias acadêmicas.

Segundo a pesquisadora Claudia Zaramella, o principal resultado do trabalho está justamente na capacidade de inclusão social promovida pela escola. “O mais importante significado desse trabalho foi realmente observar que existe diferença social entre o estudante cotista e o não cotista no momento do ingresso. E que nós conseguimos incluir. Ao fim, todos saem iguais e todos têm oportunidades semelhantes. Conseguimos incluir pessoas que talvez não entrassem em um curso de medicina se não fosse o papel social da escola”, afirma.

O artigo também aponta que indicadores como IDH e renda per capita da região de residência apresentaram relação positiva com notas acadêmicas e desempenho profissional ao longo do curso. Desta forma, os pesquisadores reforçam que políticas inclusivas associadas às práticas pedagógicas da escola podem equilibrar desigualdades sem reduzir os padrões de excelência.

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